São Paulo — Terceiro lugar. Essa é a posição que o educador Paulo Freire (1921-1997) se encontra no ranking de citações do Google Scholar, a maior ferramenta de trabalhos acadêmicos do mundo.

Ao todo, sua produção intelectual foi usada em, ao menos, 72 mil produções científicas, ficando atrás apenas do filósofo Thomas Kuhn (81 mil) e do sociólogo Everett Rogers (73 mil).

Apesar de ser o único brasileiro e latino-americano que configura a lista de 25 autores mais usados no mundo, seu reconhecimento para a educação vem sendo questionado dentro do Brasil.

Desde que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro trabalha para “expurgar o legado de Paulo Freire”, como ele mesmo descreveu em seu plano de governo para as eleições de 2018.

As últimas declarações do presidente demonstram que o “expurgo” está em andamento. Na semana passada, Bolsonaro afirmou que mudará o Patrono da Educação brasileira, título conferido a Freire em 2012.

A medida vai ao encontro de um Projeto de Lei, apresentado pela deputada federal Caroline de Toni, do PSL de Santa Catarina, para revogar a condecoração. O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, também defende o mesmo:

“Se o Brasil tem uma filosofia de educação tão boa, Paulo Freire é uma unanimidade… Por que a gente tem resultados tão ruins comparativamente a outros países? A gente gasta em patamares do PIB igual aos países ricos”, disse em seu discurso de posse.

Para os críticos, a obra de Paulo Freire, que tinha como princípio básico a defesa do ensino como forma de despertar a o pensamento crítico do aluno para sua própria realidade, é uma ameaça e incita o “pensamento ideológico de esquerda”. 

Nascido em Pernambuco, em 1921, Freire observou desde cedo as dificuldades de sobrevivência das classes desfavorecidas e usou suas experiências para desenvolver sua filosofia.

No livro “Paulo Freire: uma biografia”, o ex-diretor geral da Unesco Federico Mayor escreve que “falar de Paulo Freire é […] é referir-se a uma tenaz e serena vigília pela liberdade dos oprimidos, pela educação e pelo domínio de si mesmo. É reafirmar a convicção profunda de que todos devemos colaborar com a grande aventura do acesso ao conhecimento”.

Em entrevista ao apresentador Serginho Groisman, em 1989, Freire resumiu seus princípios: “Acredito na participação popular, acredito na transformação do mundo realizada sobretudo por aqueles e por aquelas que se encontram desprovidos, ou roubados no seu direito de ser”.

A primeira vez que aplicou seu método foi na região de Angicos, Rio Grande do Norte, em 1963. Os alunos eram analfabetos que trabalhavam na roça ou eram empregadas domésticas. Para conseguir alfabetizá-los, Freire buscou ensiná-los palavras do dia a dia. Segundo registros, cerca de 300 pessoas foram alfabetizadas em 40 horas.

Sua obra mais conhecida é “A Pedagogia do Oprimido”, publicada em 1974, onde ele disseca seus métodos de ensinamento. O livro foi traduzido para mais de 20 idiomas.

De acordo com a London School of Economics, essa é a terceira obra mais citada em trabalhos na área de humanas. Freire também aparece como único brasileiro na lista dos cem mais referenciados por universidades de língua inglesa. Seu legado é reconhecido oficialmente por várias universidades estrangeiras de prestígio, como Harvard e Yale.

Exilado na Ditadura Militar

Quando seu método de ensino começou a ser espalhado pelo Brasil, o governo de João Goulart o convidou para coordenar o Programa Nacional de Alfabetização. O objetivo era alfabetizar 5 milhões de adultos, ao longo do tempo.

No entanto, em abril de 1964, menos de 3 meses após ter sido oficializado o programa, o governo militar decidiu extingui-lo. Após isso, Freire foi preso e exilado.

De acordo com sua biografia, ele ficou 16 anos no exílio. Em 1980, quando retornou ao Brasil, começou a lecionar em universidades como Unicamp e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Em 1989, assumiu, a secretaria de Educação de São Paulo, durante o mandato de Luíza Erundina. Sua gestão teve como marca a recuperação salarial dos professores, a revisão curricular e, é claro, a implantação de programas de alfabetização de jovens e adultos.

Paulo Freire morreu aos 75 anos, após dar entrada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para realizar uma angioplastia. Complicações na reabilitação o levaram a falecer em 2 de maio de 1997.

Fonte Oficial: Exame.

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